Traição
Silêncio. É tudo o que oiço a caminho de tua casa.
Hoje, mais que nunca algo me diz que eu não quero estar aqui agora. Mas estou.
Toco as chaves que fervem na minha mala, e que pedem para ser usadas.
Tens estado distante de mim ultimamente. Magoam-me as palavras frias ditas sem pensar. Os gestos vagos com que me tocas o cabelo.
Paro em frente à tua porta.
Penso.
Entro?
Sim! A minha mente grita.
E sei que é altura de te enfrentar. Colocar-te questões. Ser eu mesma sem esconder a dor que me invade.
A chave gira na fechadura.
A porta abre, convidativa.
‘’- Entra...’’ sussurra-me.
Avanço alguns passos incertos e um som abafado espalha-se no ar.
Sinto-me sufocar momentaneamente.
Meu deus! Não pode ser.
Coloco uma mão na garganta e outra sobre o coração que ameaça deixar de bater.
À medida em que avanço em direcção ao teu quarto. Os gemidos tornam-se mais evidentes. Altos.
A porta está entreaberta, e vejo a imagem que jamais irá abandonar a minha mente e a minha alma.
- Não... – Soluço em voz alta sem querer.
Os sons páram imediatamente. E numa velocidade assustadora estás ao pé de mim. Os olhos arregalados. As mãos a tremer.
Arrastas-me até a outro quarto. Enquanto eu me deixo levar. Petrificada demais para refutar.
Encosto-me na parede quando sinto as minhas pernas fraquejarem. Deslizo por ela até ao chão.
A mão que estava a agarrar a minha garganta, aperta-a numa tentativa vã de controlar os soluços que me sacodem violentamente o corpo.
Choro num prato inconsolável.
- Isabel? Meu deus! Oh meu deus...- Tentas tocar-me.
- Não me toques! – Tento soar firme, mas a minha voz soa destroçada. Quase morta.
- Por favor querida, deixa-me explicar...
- Explicar o quê? Que te amei mais do que a mim mesma? Que tudo não passou de um engano? Que brincaste comigo da forma mais vil possível? Meu deus, eu entreguei-te tudo de mim. Tudo! Para quê? – Lágrimas, soluços. Dor
- Eu estava confuso. Foi um momento. Um erro.
- Uma traição não é um erro. É uma punhalada directa no coração. Uma traição é um golpe pelas costas que mata qualquer amor que possa existir. – Mais dor.
- Sim Isabel. Eu matei o amor que sentias por mim. Mas o amor que eu sentia por ti, ou que pensei sentir morreu muito antes disto.
- Se não me amavas – Soluços – Só tinhas que me dizer. Eu partia sem te forçar a nada. Mas preferiste enganar-me e trair-me. Quem és tu? E o que fizeste ao homem que amei mais que tudo? – Mais choro incontrolável.
- Não te quero ver mais. Nunca mais te quero ver, ouvir ou tocar. Para mim morreste. E eu morri contigo no momento. – Parto de tua casa o mais rápido possível , não sem antes ouvir:
- Desculpa. Apenas não sou o homem que mereces.
A chuva bate suavemente no meu rosto. Enquanto um gosto salgado invade a minha boca.
E não me importo se fico doente ou se morro.
Não me importo se nunca mais conseguir chorar depois deste momento.
Não me importo se a ferida da traição nunca mais cicatrizar.
Não mais me importa a dor.
Apenas quero desaparecer.
Nunca mais sentir.
Nunca mais amar.
Nunca mais existir tão vivamente como existi contigo.
Apenas quero nunca mais ter coração.
Fim...
Ella Raven,
31/10/2009


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