Sábado, 31 de Outubro de 2009

Traição

Silêncio. É tudo o que oiço a caminho de tua casa.

Hoje, mais que nunca algo me diz que eu não quero estar aqui agora. Mas estou.

Toco as chaves que fervem na minha mala, e que pedem para ser usadas.

Tens estado distante de mim ultimamente. Magoam-me as palavras frias ditas sem pensar. Os gestos vagos com que me tocas o cabelo.

Paro em frente à tua porta.

Penso.

Entro?

Sim! A minha mente grita.

E sei que é altura de te enfrentar. Colocar-te questões. Ser eu mesma sem esconder a dor que me invade.

A chave gira na fechadura.

A porta abre, convidativa.

‘’- Entra...’’ sussurra-me.

Avanço alguns passos incertos e um som abafado espalha-se no ar.

Sinto-me sufocar momentaneamente.

Meu deus! Não pode ser.

Coloco uma mão na garganta e outra sobre o coração que ameaça deixar de bater.

À medida em que avanço em direcção ao teu quarto. Os gemidos tornam-se mais evidentes. Altos.

A porta está entreaberta, e vejo a imagem que jamais irá abandonar a minha mente e a minha alma.

- Não... – Soluço em voz alta sem querer.

Os sons páram imediatamente. E numa velocidade assustadora estás ao pé de mim. Os olhos arregalados. As mãos a tremer.

Arrastas-me até a outro quarto. Enquanto eu me deixo levar. Petrificada demais para refutar.

Encosto-me na parede quando sinto as minhas pernas fraquejarem. Deslizo por ela até ao chão.

A mão que estava a agarrar a minha garganta, aperta-a numa tentativa vã de controlar os soluços que me sacodem violentamente o corpo.

Choro num prato inconsolável.

- Isabel? Meu deus! Oh meu deus...- Tentas tocar-me.

- Não me toques! – Tento soar firme, mas a minha voz soa destroçada. Quase morta.

- Por favor querida, deixa-me explicar...

- Explicar o quê? Que te amei mais do que a mim mesma? Que tudo não passou de um engano? Que brincaste comigo da forma mais vil possível? Meu deus, eu entreguei-te tudo de mim. Tudo! Para quê? – Lágrimas, soluços. Dor

- Eu estava confuso. Foi um momento. Um erro.

- Uma traição não é um erro. É uma punhalada directa no coração. Uma traição é um golpe pelas costas que mata qualquer amor que possa existir. – Mais dor.

- Sim Isabel. Eu matei o amor que sentias por mim. Mas o amor que eu sentia por ti, ou que pensei sentir morreu muito antes disto.

- Se não me amavas – Soluços – Só tinhas que me dizer. Eu partia sem te forçar a nada. Mas preferiste enganar-me e trair-me. Quem és tu? E o que fizeste ao homem que amei mais que tudo? – Mais choro incontrolável.

- Não te quero ver mais. Nunca mais te quero ver, ouvir ou tocar. Para mim morreste. E eu morri contigo no momento. – Parto de tua casa o mais rápido possível , não sem antes ouvir:

- Desculpa. Apenas não sou o homem que mereces.

A chuva bate suavemente no meu rosto. Enquanto um gosto salgado invade a minha boca.

E não me importo se fico doente ou se morro.

Não me importo se nunca mais conseguir chorar depois deste momento.

Não me importo se a ferida da traição nunca mais cicatrizar.

Não mais me importa a dor.

Apenas quero desaparecer.

Nunca mais sentir.

Nunca mais amar.

Nunca mais existir tão vivamente como existi contigo.

Apenas quero nunca mais ter coração.

Fim...

Ella Raven,

31/10/2009

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